22 de julho de 2015

A alma imoral

A peça é uma aula de filosofia com pitadas de humor leve e sofisticado. A atriz brinca com a sua nudez e transgride esteticamente pois utiliza o seu corpo nu como simbologia de sua alma em mutação. O corpo nu nos leva a uma ideia de ingenuidade, de não consciência do pecado. Sua nudez é casta. 

Clarice Niskier em A alma imoral : "Haverá maior solidão do que a ausência de si?" ( Clarice Niskier)

Li o livro A alma imoral do rabino Nilton Bonder em 2009 e apenas ontem fui ver o monólogo escrito e interpretado pela magnética Clarice Niskier, baseado na obra de Bonder. Uma mescla fascinante entre filosofia e teologia judaica. Mas a peça foi além. Combinou judaísmo com budismo e defendeu um olhar transgressor sobre as religiões e a vida de um modo geral.

Para os autores, a transgressão é elemento fundamental para a evolução, pois muitas vezes precisamos quebrar regras para fazer o que é certo, para manter o essencial

O texto de um modo geral propõe uma deliciosa ruptura com arcaicas crenças, que colocam o corpo como protagonista do desejo de transgredir. Para Bonder e Clarice quem transgride é a alma, pois ela está em constante transformação e não se sujeita à pequenez imposta pela tradição que é o dogma do corpo.

O corpo é tradicional, quer conservar, reproduzir simplesmente, manter a ordem, deixar tudo nos seus devidos lugares. A alma quer ir além. E se um homem ou uma mulher trai o seu parceiro é porque a alma assim o quer. Mas traição para os autores vai muito além de infidelidade sexual. Estamos condenados à traição, pois é por meio dela que adaptamos as tradições quando elas já não dão conta de manter o essencial.

Para os autores quando um filho deixa sua casa, trai os seus pais. Por outro lado é por meio desta traição que ele alarga o lugar estreito.  

A peça é uma aula de filosofia com pitadas de humor leve e sofisticado. A atriz brinca com a sua nudez e transgride esteticamente pois utiliza o seu corpo nu como simbologia de sua alma em mutação. O corpo nu nos leva a uma ideia de ingenuidade, de não consciência do pecado. Sua nudez é casta.
Um dos momentos mais poéticos da peça é quando a atriz fala que os homens entram em contato com sua alma por meio do amor que sentem por uma mulher, pois é o gênero feminino o destinado a ensinar a arte da transgressão.
Outra sacada interessantíssima é o entendimento dos autores em relação à combinação das religiões. Para eles é possível alguém mergulhar mais fundo no judaísmo por meio do budismo. Acho completamente plausível, da mesma forma que podemos compreender melhor o cristianismo por meio do budismo ou do espiritismo. Muitas vezes crenças mais afetivas nos permitem uma leitura mais terna a respeito de religiões mais severas porque ultrapassamos as barreiras das leis nuas e cruas e alcançamos o âmago que é a busca do amor maior. 



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