
A CRIANÇA INTERIOR
A Criança Interior
Na roda do mundo, mãos dadas aos homens,
Lá vai o menino rodando e cantando
Cantigas que façam o mundo mais manso
Cantigas que façam à vida mais doce
Cantigas que façam o homem mais criança.
Thiago de Mello
O objetivo deste artigo é resgatar o tema da criança interior, não só para o mundo infantil, como também para o olhar adulto sobre sua criança interna.
Utilizo-me dos poetas pela proximidade destes com a alma infantil, porque a eles é dado este poder de perceber o que o homem comum não consegue se quer visualizar. Aos poetas é dado ver as coisas ao revés. Como diz Rubens Alves: “Poesias são coisas vistas ao contrário. Não é coisa de pensamento. É coisa de olhar.” (Alves, 2006, p. 48) O olhar da criança, como o do poeta, nos remete ao contato com a natureza, o encontro com o original e do Self.
Como os salmões, que deixam o mar e voltam às nascentes de águas cristalinas onde nasceram os poetas desejam voltar às suas origens (eles sabem que lá está a origem da alma). A criança é esse lugar onde tudo está iniciado e tudo já existe.
Olhar para criança interior que habita em todos nós é utilizar o olhar do poeta, é voltar às origens. É lá que mora a verdade que os adultos esqueceram ou negligenciaram.Se pensarmos a criança ao nascer, na sua situação original, dominada pelos arquétipos do Uruboros e da Grande Mãe, que abrigam o eu em formação, veremos que na mitologia.
“O Uruboros representado por um dragão alado se auto devorando, é um símbolo mitológico onde não há separação entre a idéia de começo e de fim, elas coincidem. O ciclo de evolução encerra em si mesmo a busca (fim) e a própria origem (início), sugere auto fecundação em conseqüência do eterno retorno.” (Marques, 2004, p. 29)
A criança interior é tanto um fato em desenvolvimento como uma possibilidade simbólica. É a alma da pessoa, é a imagem primordial do Self, o cerne de nosso ser individual. Ela contém o poder criador e motivador. É a espontaneidade e o deslumbramento em nós. Como sugeriu Jung a criança representa uma “totalidade que abrange as próprias raízes da Natureza” (Abrams apud Jung, 1990, p.11).
Assim o arquétipo da criança representa aspectos da formação do indivíduo. Como arquétipo é “a grande” imagem da criança interior. É a parte contida em nós que representa o aspecto pré-consciente da infância da psique coletiva. O motivo da criança não coincide com a experiência concreta infantil. Para realidade psicóloga desse motivo é um meio pelo qual se expressa um fato psíquico.
Podemos dizer então que o motivo da criança representa não só algo que existiu no passado distante, mas algo que existe agora com a finalidade de compensar ou corrigir de maneira significativa a unilateralidade da mente consciente, pois é da natureza desta concentrar-se em alguns conteúdos e buscar a expressão máxima destes através da vontade direcionada para determinado objetivo, para o progresso, buscando assegurar um espaço nesse mundo adulto, onde os valores coletivos tendem a predominar. Com isso são excluídas outras possibilidades de realização da consciência e, o que é pior, o indivíduo pode perder o contato com as raízes do seu ser, negligenciando a sua criança interior.
Nesse processo de crescimento, onde o ego vai se constituindo enquanto imagem do eu, a mente consciente, separada de suas origens primeiras, torna-se muitas vezes incapaz de realizar o projeto de sua própria individualidade levando as pessoas a serem absorvidas pelos valores e pelas realidades massificadas.
A pessoa que somos é produto das escolhas que fazemos ao longo de nossas vidas. Cada um de nós começa com um único grupo de possibilidades de terminadas por nossas capacidades inatas e pelas circunstâncias exteriores que encontramos.
Algo no fundo de nós tem consciência de que possuímos uma identidade única, e ela não é o rosto que apresentamos ao mundo, tampouco a imagem que fingimos ver no espelho. Essa identidade única é uma obra em andamento, uma meta que estamos tentando atingir, um destino de que nos aproximamos ou de que nos distanciamos à medida que crescemos e nos desenvolvemos.
Bernardo Soares, uma das entidades de Fernando Pessoa, é explícito: os adultos são burros, as crianças são inteligentes. “Julgo ás vezes que somos acompanhados na infância por um espírito de guarda, que nos empresta a própria inteligência astral e que depois nos abandona ao nosso destino.” E o próprio Fernando Pessoa diz: “A inteligência astral não nos abandona em decorrência de uma lei mais alta. Ela nos abandona por ser incompatível com a adultice. A inteligência adulta é grave. Faz afundar. A inteligência infantil é leve faz levitar.” (Pessoa apud Alves, 2006, p.48).
Inteligência astral tem a ver com conhecimento arquetípico? Edith Sullwold, referindo-se a George Bernard Shaw nos diz que a criança tem as suas próprias “aspirações mais sagradas”, o seu próprio e singular caminho. Dando a expressão “mais sagrada” os dois significados que lhe são próprios neste contexto, ou seja, aspirações ou intenções consideradas frutos de uma fonte sagrada ou espiritual e a relação com o inteiro, esse dom de vida que nos é dado (Abrams, 1990).
Parece que quando o poeta refere-se ao espírito que nos empresta a própria inteligência astral ele está se referindo a esta força vital e natural que contém o arquétipo, a energia avivadora e inspiradora que representa e expressa aspectos criativos da vida.
“Quando os adultos ensinam aprendemos o conhecimento que nos permite dominar o mundo. Quando as crianças ensinam, nós aprendemos a arte de viver.” E o que é a arte de viver se não a arte do encontro com o outro, consigo mesmo e com a criança interna que nos habita?
Retornando ao motivo da criança, vimos que esta representa não só a origem como também é o potencial do futuro. No processo de individuação ele antecipa a figura que decorre da síntese entre os elementos conscientes e inconscientes da personalidade. Portanto é um símbolo que une os opostos, um mediador, portador de cura, isto é, um reparador que trás inteireza. Por ter esse significado de inúmeras renovações e transformações. Aparecendo em nossa vida sempre que nos desapegamos e abrimos à mudança. A ela nos voltamos em momentos de perda, sofrimento, abandono e grande pressão interna (Jung, 1986).
Em seu livro Memórias, Sonhos e Reflexões, Jung recorda seu inesperado encontro com a própria criança interior e a importância que esse momento teve em sua vida. Ele havia rompido com Freud, estava se reorganizando profissionalmente e sob uma “pressão interna constante”. Sua inquietação emocional era tão intensa que ele suspeitava ter uma perturbação psíquica, e foi na busca da causa fundamental desse problema, que ele se deparou com recordações da infância, do menino que brincava, e ele brincou por um longo período, e esse “brincar sério”, como ele mesmo definiu, foi um momento decisivo de mudança em seu destino.
O contato de Jung com sua criança interior desempenhou um papel importante na liberação das extraordinárias energias criativas que culminaram com sua teoria dos arquétipos e do inconsciente coletivo e com o trabalho “A psicologia do arquétipo da criança”.
Conforme o próprio Jung; a tendência a empenhar-se em atividades regressivas tem a função positiva de nos manter ligados à criança, de ativar a criança interior. Segundo ele a regressão é “uma tentativa genuína de alcançar alguma coisa necessária: a sensação universal da inocência infantil, a sensação de segurança, de proteção, de amor recíproco de confiança, de fé – essa coisa tem tantos nomes” (Jung apud Abrams, 1990, p. 12).
Hillman (1981, p. 31) por sua vez afirma, “O que a psicologia profunda passou a denominar regressão é apenas o retorno a criança.” É o processo de interiorização na busca da energia criativa, inovadora, que nos possibilita ampliar e desenvolver a nossa jornada na busca da individuação.
A maioria das pessoas continua tendo contato com sua criança interior quando adulto, através de hábitos, desejos e condutas pueris.
A criança interior que habita a alma de cada um pode vir a tomar várias formas. Ela pode ser alegre, divertida, viva, como conseqüência do aspecto positivo, ou mal humorada, birrenta, impaciente, ranzinza, como expressão do arquétipo negativo. O Aspecto negativo deixa evidente a criança ferida.
A criança interior ferida, trazida ao consultório pelo adulto, chega ao revés, pedindo licença, mas andando para trás, parecendo fugir. Como nas brincadeiras infantis de “Mamãe posso ir” e “Meia, meia lua, 1... 2... 3...”. Na primeira, reverenciando os complexos paternos que os impedem de viver a própria criança ou seja a capacidade de liberdade no plano do imaginário, do espontâneo, do autêntico. Na segunda vem trazida pelos sonhos. “O primeiro lugar em que encontraremos a criança abandonada é nos sonho em que nós mesmos, um filho nosso ou uma criança desconhecida é negligenciada, esquecida (...)”. (Hillman,981, p.27).
O tema da criança, nos sonhos se faz presente de forma bastante intensa, mas principalmente, antecedendo o início do processo de individuação.
Para finalizar, nos perguntamos como podemos nós, enquanto indivíduos, entrar em contato com a criança que vive dentro de nós? Segundo Nietzsche citado por Joseph Campbell “Matando o dragão que se chama ‘tu deves’”.
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